O crime de dormir com os pais

A velha campanha americana contra a cama compartilhada com os pais está acirrada. Não faltam brasileiros e brasileiras para concordar. Entre os livros de maior sucesso no Brasil está o Nana Nenê, de Eduard Estivill e Sylvia de Béjar, que promove o famoso "deixa chorar". A campanha contra acolher o bebê, contra dormir junto, tem seus motivos, o mais forte deles é o abuso sexual. Com imagens de bebês adormecidos ao lado de facas e armas, promove a idéia de que dormir com os filhos-bebês é ato criminoso. Nenhuma campanha pró-compartilhamento de cama pode ser irresponsável de não levar em conta o nosso alto índice de abusos sexuais, a maior parte deles cometidos dentro de casa por padrastos e outros parentes, incluindo os próprios pais.
É um assunto indigesto e a cura dele, reparação ou investimento em queda de índices, certamente não ruma bem em uma campanha que usa como imagem facas e armas ao lado de bebês. Tratar a perversão com mais perversão é no mínimo arbitrário.
A prática da cama compartilhada é defendida por aqueles que promovem o amor via contato físico com os bebês, o bem-estar em um relacionamento que acompanha o desenvolvimento da criança. Os bebês são muito dependentes, necessitam agarrar-se em seus cuidadores, especialmente na matriz, a nutriz, a mãe, aquela que biologicamente nasceu preparada para salvá-los na luta pela sobrevivência via aleitamento. Os seres humanos podem levar mais de um ano até conseguir andar sozinhos, necessitam de colo, ser carregados, que cantem e brinquem com eles e costumam apreciar um aconchego para dormir.
Segundo últimos estudos sobre o sono dos bebês, o ideal para eles é dormir muito próximos do corpo materno ou de um adulto substituto porque as fases de sono REM deles são muito rápidas, eles acordam várias vezes e voltam a dormir rapidamente sem chorar quando encontram o aconchego de um ser humano, cheiro familiar, batimentos cardíacos alentadores, contato físico enfim. A tradição de dormir com bebês de peito é atávica, tem origem natural em ligação com o aleitamento, algo comum entre mamíferos, como afirma a bióloga e neurocientista Andréia Mortensen.
Bebês que dormem sozinhos podem enfrentar sentimentos de extrema solidão e chorar muito por falta de contato, o que atrapalharia um sono reparador já que pelo susto ao despertar ficariam mais tempo acordados. A sensação de proteção, de poder contar com ajuda imediata durante o processo gradual de dessimbiotização do corpo da mãe, traz segurança e autonomia para a fase subsequente, a partir dos dois anos, segundo estudos atuais na neurobiologia.
A campanha contra a cama compartilhada baseou-se em estudos que faziam ligação entre esse antigo hábito familiar e casos de morte por sufocamento mas, revista recentemente, essa pesquisa foi literalmente derrubada. Foi verificado que 100% das crianças que morreram sufocadas por seus pais tomavam leite de fórmula e há ainda altos índices de uso de álcool e drogas por parte dos pais.
Infelizmente a campanha contra a cama compartilhada não leva em conta o desenvolvimento saudável de bebês saudáveis, filhos de pais e mães responsáveis. Ao focar nas patologias de adultos, veiculando fotos perversas, visa tratar a perversão com o mesmo veneno que a desenvolve; o do relacionamento distante e raivoso em relação às crianças. Parte do princípio que educar é ficar longe, deixar chorar, promove a separação abrupta e sentimentos de hostilidade em relação ao bebê.
O retorno não há de vir por parte de adultos abusadores. Nenhum adulto com patologia sexual, nenhum pedófilo vai deixar de abusar das crianças porque ouviu falar que dormir com elas pode matá-las. Agora, muitos pais bem intencionados, amorosos e com livre acesso ao melhor do conhecimento sobre o assunto, que praticam educação alimentar e contato genuíno vendo os filhos como sujeitos da própria história, acabam fazendo confusão, como fica evidente nesse depoimento da apresentadora de televisão Angélica que afirma ser gostoso dormir aconchegada com os pequenos, mas pensa que isso não está certo e que apanharia dos psicólogos por seguir seus melhores sentimentos intuitivos.
Bebês necessitam de proximidade física, bebês que passam o dia inteiro longe de suas mães necessitam ainda mais desse contato. Segundo estudos de 20 anos em setting terapêutico, por Margareth Mahler e colaboradores, os bebês vivem nos dois primeiros anos de vida um processo de diferenciação da mãe, de dessimbiotização e seriam o peito, o colo, o livre acesso ao corpo materno, fatores fundamentais para a base sólida dos processos de autonomia e independência.
Deixar chorar, obrigar os bebês a dormir sozinhos sob protestos e chororôs é um fator a mais de estresse familiar e tende a desencadear os mais violentos e absurdos comportamentos dos adultos e não o contrário. Atender amorosa e pacientemente às demandas dos bebês que ainda não têm capacidade cortical para compreender que são separados da mãe é uma atividade inteligente por parte dos adultos. A cama compartilhada é um investimento em maior quantidade do hormônio ocitocina circulando nos corpos dos pais e a ocitocina promove bem-estar, reflexo de descida do leite mais rapidamente, assim como pensamentos amorosos na dupla parental e consequentemente nos bebês. O choro do bebê é irritante se não conseguimos debelá-lo com amor, com contato físico carinhoso.
É fato também que 10% dos bebês dormem por longas horas durante a noite desde recém-nascidos. Cabe aos pais decidir se a cama compartilhada para esses bebês necessita ser uma regra, do mesmo modo que cabe aos pais verificar se a cama compartilhada para crianças maiores ainda é um benefício de amor às crianças ou mais um temor interno, uma dificuldade de separação dos adultos em relação às crianças. Alguns adultos enfrentam problemas ao precisar lidar com a fase de autonomia de seus bebês, que se inicia por volta dos 2 anos. Muitas vezes a criança está preparada para dormir sozinha, pode se beneficiar muito de seu espaço, desfrutar de idas e vindas voluntárias no meio da noite ou ao amanhecer até a cama dos pais, mas os adultos não conseguem processar isso e se mantêm grudados na criança, negando-se a investir na autonomia. Como no processo de desmame, retirar a criança da cama dos pais exige perseverança, vencer a preguiça de acolher no meio da noite, passar para o quadrinho das conversas e histórias e abandonar os corpos e as atitudes de superproteção e semi-simbiose, tão bem vindas em pais e mães de crianças muito pequenas que ainda não têm o entendimento cortical da segurança do espaço domiciliar maior.
Todo movimento de corte, seja desmame, cama compartilhada, desfralde, entrada na escola, terá menores índices de somatizações e transtornos psíquicos para todos os envolvidos, especialmente para a criança, quando feito gradualmente. Assim como não se deve pular de uma amamentação em livre demanda para o desmame absoluto, não é inteligente achar que uma criança acostumada a dormir com os pais vai passar a dormir na própria cama ininterruptamente, sem necessidade de investimentos em idas e vindas ao novo quarto. Esse trabalho educativo, que exige tempo e disponibilidade emocional, não deveria ser motivo para atalhos perversos e abruptos que deixam de levar em conta o desenvolvimento natural das crianças, que é essencialmente biológico.

*Cláudia Rodrigues, jornalista, terapeuta reichiana, autora de Bebês de Mamães mais que Perfeitas, 2008. Centauro Editora.

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